Obra medieval que desafia historiadores há séculos ganha nova hipótese interpretativa
Em 1912, o antiquário polonês Wilfrid Voynich comprou um livro misterioso que permanecia em Roma, sob a posse de jesuítas, havia mais de 200 anos.
Recheado de ilustrações de plantas desconhecidas, mapas celestiais, estranhas mulheres nuas em piscinas e centenas de palavras escritas em um idioma até hoje não identificado, o Manuscrito Voynich, como ficou conhecido, é tido como a obra do gênero mais misteriosa do mundo e, desde sua descoberta, suscita uma série de teorias sobre sua origem e utilidade.
ENIGMA - Detalhe: plantas desconhecidas e até mulheres nuas Photo12/UIG/Getty Images Hoje pertencente à universidade americana Yale, o manuscrito, há séculos, intriga historiadores e desafia criptógrafos e linguistas, que tentaram, em vão, desvendar seus segredos.
Agora, uma pesquisa recém-publicada na revista científica Digital Medievalist pode abrir um novo caminho para decifrá-lo.
A ideia sustentada no novo trabalho representa uma reviravolta naquilo que se sabia a seu respeito, ao lançar uma hipótese prosaica para um problema tão complexo: a obra talvez tenha sido encadernada e estudada na ordem errada por centenas de anos — um detalhe capaz de mudar o modo como suas páginas são interpretadas.
“Há evidências de natureza ilustrativa e paleográfica que corroboram a tese”, disse a VEJA a diretora da Medieval Academy of America, Lisa Fagin Davis, coautora do estudo, que se valeu de uma ferramenta de análise de dados para comparar as páginas.
Encadernado como um livro tradicional, o manuscrito teria sido concebido originalmente como uma série de livretos empilhados uns sobre os outros.
Esses folhetos independentes, formados por folhas dobradas ao meio, teriam sido abertos e costurados para formar um único volume, fazendo com que páginas complementares acabassem separadas e fora de ordem.
A descoberta pode ter implicações que vão além da organização das páginas.
Segundo o estudo, cada um desses livretos apresenta características distintas de escrita, o que sugere a participação de vários autores — e não só de um gênio solitário e atormentado, como se imaginava.
“Ainda não sabemos ao certo, mas é provável que o manuscrito fosse um registro de conhecimento coletivo e de consulta comunitária”, sugere a medievalista.
Continua após a publicidade ESTUDO - Pesquisador se debruça sobre a obra: tese inovadora Cesar Manso/AFP As novas pistas se somam a uma longa história de tentativas frustradas de desvendar o conteúdo do manuscrito.
Voynich comprou o volume acreditando tratar-se de um diário científico do frade e filósofo Roger Bacon.
Outros chegaram a atribuí-lo ao gênio renascentista Leonardo da Vinci.
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