Trinta anos sem Renato e a luta de pais e filhos por um país
Eu me lembro como se fosse hoje.
Contava 16 anos e já era um ouvinte voraz da Legião que, na solidão do meu quarto, a tudo vencia.
Ao chegar da escola, recebi a notícia da minha mãe e, mais à noite, meu pai vez ou outra batia à porta pra saber como eu estava me sentindo.
Renato partia e eu, sozinho, já sem o sol batendo na janela, ficava ouvindo em cassetes e CDs de um sony velho preto todos os álbuns da banda.
Ininterruptamente.
Chorando.
“É tão estranho, os bons morrem jovens”, e não fugiu à regra o poeta cujas letras pareciam falar de todos nós e, ao mesmo tempo, a cada um em especial.
Daí a universalidade concreta de seus versos, daí a verdadeira arte deles.
Com sua voz ímpar, extensa e às vezes sorumbática, Renato dava forma a um conteúdo visceral, triste, amoroso e rebelde.
Renato parecia cantar por nós, parecia gritar por nós.
Com algo de Rimbaud, Baudelaire, Dylan, Morrison, Jagger e mesmo de Kurt, Renato vocalizava aquela angústia e contestação que todo sujeito provido de coração nutre nesse nosso mundo (cada vez mais) sem coração (para parafrasear o jovem Marx).
Talvez ele fosse, via ondas sonoras, aquele alguém que a gente quisesse conversar, e que depois não usasse o que dissemos contra nós… Umas semanas atrás, o amigo Dado me disse que talvez a música seja a mais universal das artes, porque o som, com tudo que ele carrega, seria capaz de nos tocar a todos, a despeito de nossas referências temporais, culturais e idiomáticas.
Ouvindo nesses dias (desleais) a introdução acústica de Índios, na qual beleza e tristeza se harmonizam perfeitamente, me emocionei pensando em tudo que estamos passando; cada um com suas dores próprias, seus dramas pessoais, seus medos particulares, mas todos nós diante do que, como país, estamos nos tornando quando nem os santos (e a santa) têm mais a medida da maldade.
Se o Brasil ainda é esse, e o é agora ainda mais do que quando foi cantado, Renato segue conosco de alguma forma.
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