Como França foi além do combate à desinformação para aumentar cobertura vacinal: 'Vale mais vacina no braço que mente convencida'
Em 2018, quando a França tinha acabado de mudar as leis e reforçar a obrigatoriedade de mais de uma dezena de vacinas para as crianças, um grupo de pesquisadores soltou o alerta: uma medida forte desse tipo poderia ter o efeito contrário.
O temor desses especialistas era que, ao apertar o cerco contra pais hesitantes ou que eram contrários à vacinação, o governo daria um tiro no próprio pé, ao gerar controvérsias e aumentar a polarização contra as doses que protegem contra sarampo, meningite, poliomielite e uma série de outras doenças.
"Nós claramente estávamos errados, não foi isso que aconteceu", admite hoje o sociólogo Jeremy Ward, do Instituto Nacional da Saúde e Pesquisa Médica da França, um dos autores do artigo que fazia o alerta, publicado em 2018.
Passados oito anos das mudanças na lei, a França — historicamente um dos países com as maiores taxas de hesitação vacinal do mundo — vive um outro cenário quando o assunto é imunização.
Para várias vacinas, a cobertura vacinal está acima da meta considerada ideal para alcançar a chamada imunidade de rebanho — quando uma parcela suficientemente alta da população está protegida para dificultar a circulação de um agente infeccioso e proteger indiretamente quem não pode ser imunizado.
Para outras, a porcentagem da população vacinada praticamente dobrou de um ano para outro, embora o número ainda não tenha alcançado o ideal.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, essa experiência francesa é um exemplo de como há muito a ser feito para aumentar as taxas de vacinação — e isso vai muito além de combater notícias falsas ou desinformação sobre o tema nas redes sociais.
No Brasil, as coberturas vacinais infantis começaram a cair de forma geral a partir de 2015.
A situação se agravou durante a pandemia de covid-19, quando a cobertura de diversos imunizantes ficou abaixo das metas estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
No caso da primeira dose da vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola), por exemplo, 96% das crianças brasileiras estavam vacinadas em 2015.
Esse número caiu para 86% em 2017 e desabou para 74% em 2021.
Em 2024, voltou a subir para 95% (veja mais no gráfico no final da reportagem).
Uma trajetória semelhante pode ser observada em outros imunizantes.
A cobertura da BCG, vacina aplicada preferencialmente ao nascer para proteger contra formas graves de tuberculose, era de 105% em 2015 e caiu para 75% em 2021.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em g1.globo.com — o conteúdo pertence a G1.