Aldir Blanc, que faria 80 anos, foi um afiado letrista que enfiou a navalha na carne do Brasil com versos imagéticos
O compositor carioca Aldir Blanc (1946 – 2020), parceiro letrista de João Bosco e Guinga, faria 80 anos hoje, quarta-feira, 2 de setembro Divulgação ♫ MEMÓRIA ♬ Um dos 716.238 brasileiros mortos em decorrência da pandemia de covid-19, de acordo com as estatísticas oficiais, o compositor e poeta carioca Aldir Blanc Mendes (2 de setembro de 1946 – 4 de maio de 2020) está tão eternizado na música brasileira – pela força da obra que construiu como letrista com parceiros fundamentais como João Bosco, Guinga e Moacyr Luz – que, numa licença poética, pode-se dizer que Aldir faz 80 anos hoje, quarta-feira.
A rigor, o bardo carioca faria 80 anos, pois saiu de cena há seis anos e quatro meses, aos 73 anos.
Mas canta-se tanto a música de Aldir Blanc que, sim, o verbo pode ser conjugado no presente.
Arquiteto de letras engenhosas, imagéticas e por vezes surrealistas que pareciam delírios cariocas, ou coisas de cinema, prontas para serem filmadas para gerar um clipe ou um curta-metragem, Aldir Blanc foi compositor de sintaxe própria e inimitável na escrita da MPB.
Como letrista afiado, o poeta enfiou a navalha na carne do Brasil com versos corrosivos que fizeram a crônica de um país tão violento quanto sensual.
Foi como se a obra de Aldir Blanc tivesse sido um samba anti-exaltação do Brasil, a exemplo da obra-prima “Nação” (1982), parceria com Bosco e Paulo Emilio apresentada ao país do Carnaval na voz iluminada da cantora Clara Nunes (1942 – 1983).
Com a sina verde e amarela, o poeta escarrou o sangue das vítimas de um Brasil que vive em (não declarado) estado de guerra civil em letras que normalmente seguiram a cadência do samba, entre eventuais incursões pelo bolero, ritmo de “Dois pra lá, dois pra cá” (1974), e por outros gêneros musicais.
Cronista lapidar das querelas do Brasil, Aldir Blanc foi letrista que escreveu no fio da navalha, singrando mares da saudosa Guanabara como mestre-sala de versos que reportaram páginas infelizes da história do Brasil e da privacidade de lares nem sempre doces.
O controvertido samba “Gol anulado” (1976), alvo de recentes discussões nas redes sociais por retratar a violência doméstica contra a mulher em dia de jogo de futebol, exemplifica a virulência da pena do cronista.
No cancioneiro de Aldir, o sangue esguichou tanto do corpo estendido no chão em “De frente pro crime” (1974)– samba que expôs a violência cotidiana da cidade do Rio de Janeiro (RJ) – como do coração pisoteado por ingratidões e desilusões amorosas.
Se Aldir veio ao mundo a fórceps, tirado com aflição da barriga da mãe em parto alongado que deixaria sequelas na mãe e (talvez de forma inconsciente) no filho, a entrada no universo da música se deu com naturalidade.
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