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Ciência

Documentário resgata trajetória de pioneira na pesquisa sobre cerâmica popular feminina

Por Redação 5News · · com informações de Agência FAPESP
Documentário resgata trajetória de pioneira na pesquisa sobre cerâmica popular feminina

Documentário Resgate Legado de Pesquisadora que Estudou Cerâmica de Mulheres no Vale do Ribeira

Uma produção audiovisual financiada pela FAPESP traz à luz a trajetória de Herta Löell Scheuer, investigadora que dedicou duas décadas ao registro minucioso das práticas cerâmicas desenvolvidas por mulheres em comunidades rurais de São Paulo e Paraná. O documentário intitulado Coleção Cerâmica – Herta Löell Scheuer apresenta não apenas a vida profissional dessa pioneira dos estudos sobre artesanato feminino, mas também recupera uma coleção de artefatos de cerâmica que hoje integra acervo universitário, funcionando como testemunho material de saberes culturais que atravessaram transformações profundas ao longo do século passado.

A pesquisa que originou o documentário revela como conhecimentos ancestrais foram mantidos vivos e continuamente recriados por mulheres em seus territórios e práticas cotidianas, mesmo diante das mudanças econômicas e sociais que marcaram o Brasil entre os anos 1950 e 1980. O filme é resultado do trabalho do Grupo de Pesquisa em Arqueologia do Gênero, da Persistência e da Libertação, sediado na Universidade Federal de São Paulo, especificamente em seu Laboratório de Estudos Arqueológicos localizado em Guarulhos.

Quem foi Herta Löell Scheuer

Entre o início dos anos 1960 e o final da década de 1980, Scheuer conduziu extensa pesquisa de campo focada na produção de cerâmica popular. Sua abordagem se distinguia por dar especial atenção não apenas aos objetos em si, mas aos processos de confecção, às diferentes utilidades dos artefatos e, sobretudo, ao papel central das mulheres que mantinham esses conhecimentos vivos através da transmissão familiar e comunitária.

O resultado de seu trabalho foi sistemático e multifacetado: acompanhado de fotografias, desenhos descritivos e publicações acadêmicas, o registro que Scheuer organizou transformou-se em um importante arquivo documental. Em 1984, essa pesquisadora doou sua coleção pessoal de cerâmicas e documentação relacionada ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná, onde permanece preservada até hoje.

Um Acervo que Guarda Histórias de Comunidades

Os objetos que compõem a coleção Scheuer funcionam como artefatos que contam histórias de grupos humanos. Panelas, moringas para armazenar e transportar água, potes de diferentes tamanhos, cachimbos artesanais e ferramentas utilizadas no processo de fabricação compõem um conjunto heterogêneo que ilustra a diversidade de usos e formas presente na cerâmica popular.

Esses artefatos transcendem seu valor meramente utilitário ou estético. Cada peça preservada carrega em sua materialidade informações sobre modos de fazer, sobre as mãos que as moldaram, sobre as comunidades que delas se serviam. A cerâmica popular documenta, dessa forma, um patrimônio imaterial transmitido de forma oral e prática, frequentemente despercebido pela historiografia oficial e pelos estudos convencionais.

A manutenção dessa coleção num museu universitário ressignifica esses objetos. Deixam de ser meramente itens de uso doméstico e se convertem em documentos que permitem acessar épocas passadas e as formas de vida que as caracterizavam. As peças, assim preservadas, estabelecem pontes entre tempos diferentes.

O Documentário e o Projeto de Pesquisa Contemporâneo

A realização do documentário não se trata simplesmente de um registro histórico ou de uma homenagem biográfica. O filme integra uma série maior dedicada às práticas cerâmicas desenvolvidas no Alto Vale do Ribeira, região que se estende entre São Paulo e Paraná, e coloca foco especial nas mulheres que sustentam esses saberes até o presente.

O projeto que fundamenta a produção audiovisual se caracteriza por trazer um diálogo crítico entre diferentes temporalidades e fontes de conhecimento. Pesquisadores contemporâneos trabalham com os acervos arqueológicos e museológicos herdados de investigações anteriores, com fotografias e documentos históricos, mas integram a esse material o conhecimento vivo de mulheres ceramistas atuais e suas famílias.

Segundo Marianne Sallum, coordenadora do projeto e responsável pela produção do documentário, a iniciativa retoma a trajetória de Scheuer justamente para instaurar um diálogo produtivo. Ao longo de suas pesquisas de campo, Scheuer compilou não apenas peças de cerâmica, mas também fotografias extensas e informações detalhadas sobre a produção em diferentes comunidades rurais.

A Ponte Entre Passado e Presente

Uma inovação do projeto atual consiste em sua metodologia. Não se trata apenas de examinar o que foi registrado décadas atrás, mas de levantar novas perguntas. Os registros de Scheuer relativos aos anos 1950 e 1960 atuam como recurso que permite traçar conexões com saberes ainda mais antigos e, ao mesmo tempo, comparar e dialogar com as práticas contemporâneas.

Os dados deixados por Scheuer abrem uma janela temporal significativa. Permitem aos pesquisadores atuais compreender transformações que ocorreram ao longo de décadas nas formas de fazer cerâmica, nas comunidades que a praticam e nos significados culturais associados a esses artefatos. Simultaneamente, o trabalho atual transforma objetos que permaneciam em prateleiras de museu em elementos conectados a pessoas, famílias e lugares reais.

Dessa forma, a coleção que estava preservada no acervo passa a ser compreendida não como acúmulo de antiguidades descontextualizadas, mas como registro material de histórias vividas. As peças ganham novas camadas de significado ao serem revinculadas às mulheres que as criavam e às comunidades nas quais circulavam.

O que Acompanhar

O documentário representa apenas um dos resultados esperados do projeto financiado pela FAPESP. Expectativas futuras incluem a publicação de resultados de pesquisa decorrentes da colaboração entre pesquisadores acadêmicos e mulheres ceramistas do Vale do Ribeira. Também está em pauta o desenvolvimento de novas metodologias para trabalhar com acervos históricos em diálogo com comunidades vivas.

Outro aspecto relevante a acompanhar refere-se à possível ampliação das colaborações entre instituições que guardam acervos e as comunidades de origem dos artefatos. Esse modelo de trabalho pode estabelecer precedentes para outros projetos similares no Brasil.

Por fim, há a questão de como documentários como esse podem contribuir para a valorização de saberes femininos historicamente subestimados ou invisibilizados na tradição acadêmica, abrindo espaço para que produções de mulheres ganhem maior visibilidade institucional.

Principais pontos:

• Documentário financiado pela FAPESP recupera a trajetória de Herta Löell Scheuer, pesquisadora que entre 1960 e 1980 registrou sistematicamente a cerâmica popular produzida por mulheres em comunidades de São Paulo e Paraná

• A coleção de cerâmicas doada por Scheuer ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná em 1984 serve como testemunho material de saberes culturais ancestrais transmitidos através de gerações

• O projeto que gerou o documentário utiliza acervos históricos em diálogo com mulheres ceramistas contemporâneas do Vale do Ribeira, estabelecendo conexões entre registros de 1950 a 1960 e as práticas atuais

• A iniciativa demonstra como objetos preservados em museus podem ser revinculados a pessoas, famílias e comunidades reais, transformando artefatos históricos em documentos vivos de histórias de mulheres

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Matéria produzida pela Redação 5News com apoio de inteligência artificial a partir da apuração de Agência FAPESP — os fatos do episódio vêm da matéria original; o contexto usa informação pública consolidada. Veja nossa política editorial. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.

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