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Guerrilha interna expõe vísceras do STF em franca decomposição

UOL Notícias ·
Guerrilha interna expõe vísceras do STF em franca decomposição

De um tribunal chamado Supremo espera-se suprema estabilidade, solenidade e contenção. Mas o que se vê no STF é o oposto disso. Às vésperas do julgamento que coloca Alexandre de Moraes na berlinda, o conflito que mobiliza as togas ganhou contornos de guerrilha.

Neste domingo, a PF informou ter "plenas condições técnicas" para enviar cópias do conteúdo do celular de Daniel Vorcaro aos ministros do Supremo. Foi uma resposta ao questionamento feito na véspera por Edson Fachin.

Em reação, André Mendonça sustentou em despacho que o compartilhamento dos dados serviria apenas para "tumultuar" o julgamento, além de comprometer as investigações. Não teve a mesma preocupação quando divulgou o teor das mensagens que deram às relações de Moraes com o banqueiro preso contornos potencialmente criminosos.

Cristiano Zanin, um dos membros da facção de Moraes, deu de ombros para Mendonça. Ordenou à PF a remessa do conteúdo do celular de Vorcaro ao seu gabinete. Além dele, Gilmar Mendes e o próprio Moraes exigem saber tudo o que o telefone do dono do falecido Banco Master tem a dizer.

Insatisfeito com tudo, Moraes pediu a Fachin algo mais. Quer que o presidente do Supremo levante o sigilo de um pedaço específico do inquérito sobre o Master. Refere-se à rede de pagamentos do banco. As transferências foram expostas em relatório do Coaf. Mendonça retarda desde março o pedido da PF para apalpar esses dados.

Flávio Dino abriu uma trincheira nova. Retirou em pleno domingo o sigilo das investigações sobre o desvio de emendas parlamentares para a cinebiografia de Bolsonaro. Citou a decisão em que Mendonça jogou no ventilador as mensagens de Vorcaro a Moraes. Mencionou a ordem de Fachin que abriu os dados do caso Master. Irônico, concluiu: há uma "viragem jurisprudencial em curso à qual devo me adaptar, em homenagem ao princípio da colegialidade".

Moraes acusou Mendonça de induzir a PF a produzir o relatório que o empurrou para o cadafalso. Dino ecoou a acusação. E insinuou haver um viés bolsonarista na seletividade. Ele anotou em seu despacho: "A autoridade estatal passa a escolher alvos, de acordo com amizades e inimizades, ou outros interesses ilegítimos, tais como 'agradar' detentores de poder econômico ou político, alimentar passeatas e outros 'espetáculos', ou mesmo gerar ganhos financeiros".

A sucessão de aberturas de sigilo, estimulada pela pressão da falange pró-Moraes, expõe uma tática inconfessada. É como se o grupo desejasse tornar o julgamento da próxima terça-feira amplo o bastante para desestimular a investigação de uma única toga.

O resultado do julgamento é incerto. Mas a guerrilha expõe um drama que sobreviverá ao desfecho do caso Moraes-Vorcaro. As vísceras do Supremo entraram em fase de franca decomposição. A restauração da cordialidade e da colegialidade levará tempo. Muito tempo.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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