O médico que ganhou um Prêmio Nobel por fazer 12 furos no cérebro dos pacientes
Um cirurgião perfura o crânio do paciente dos dois lados, na altura das têmporas.
Por cada furo, insere um tubo fino de metal, que tem, na ponta, um fio retrátil que se abre como um laço.
Ele gira o instrumento dentro do cérebro e corta um círculo no lobo frontal.
Seis cortes de cada lado, doze ao todo.
Isso é, na prática, a leucotomia pré-frontal — um procedimento que ficaria conhecido como lobotomia .
Com o paciente sob anestesia geral, destruíam-se partes do cérebro como tratamento psiquiátrico.
O procedimento era rápido: pacientes eram operados no mesmo dia em que chegavam ao hospital e voltavam ao internamento psiquiátrico em até dez dias.
A ideia por trás do corte veio de Egas Moniz , que desenvolveu a técnica com o neurocirurgião Almeida Lima em 1935.
Ele acreditava que os transtornos mentais vinham de circuitos cerebrais presos em loops de pensamento fixo entre o tálamo e o córtex pré-frontal.
Cortar essas conexões, no raciocínio dele, deveria libertar o paciente do próprio delírio.
Se funcionava em um chimpanzé, por que não em humanos? A inspiração veio de um congresso em Londres , onde Moniz assistiu à apresentação de pesquisadores de Yale que haviam removido o córtex pré-frontal de um chimpanzé agressivo e observado o animal ficar dócil, quase apático.
Se funcionava no chimpanzé, ele concluiu, por que não em humanos? Na época, a ideia não era uma excentricidade isolada.
Moniz publicou os resultados dos primeiros 20 pacientes em menos de um ano, a comunidade médica internacional recebeu bem a técnica, e ela se espalhou para dezenas de países em poucos anos.
Em 1949, Moniz recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina pelo desenvolvimento da leucotomia pré-frontal, descrita pelo comitê como uma descoberta “de valor terapêutico comprovado”.
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