Pela segunda vez, Manaus registra péssima qualidade do ar
Manaus enfrenta pela segunda vez em menos de três semanas qualidade do ar considerada péssima
A capital amazonense acordou novamente com um denso véu de fumaça tóxica envolvendo a cidade, registrando condições de poluição atmosférica entre as piores do planeta. O fenômeno, que se repete em intervalo surpreendentemente curto, resulta dos incêndios florestais que avançam sobre a região metropolitana e municípios circunvizinhos, forçando a população a proteger-se com máscaras para circulação nas ruas.
O episódio mais recente foi documentado na madrugada de sexta-feira, 9 de outubro, quando a plataforma de monitoramento ambiental Selva, operada pela Universidade do Estado do Amazonas, registrou concentrações de material particulado fino que atingiram patamares alarmantes. Os dados coletados às 2 horas e 23 minutos apontaram índice de PM2,5 de 350,9 microgramas por metro cúbico, representando uma proporção superior a 23 vezes o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde para o período de 24 horas, que corresponde a 15 microgramas por metro cúbico.
Este não é um isolado momento de deterioração da qualidade do ar. Pouco mais de duas semanas antes, precisamente no dia 23 de setembro, Manaus havia registrado concentração de 300 microgramas por metro cúbico do mesmo poluente, caracterizando igualmente uma situação crítica para a saúde pública. A recorrência em tão curto espaço de tempo revela a intensidade e persistência dos processos de combustão que assolam a região.
Os focos de incêndio e a expansão da fumaça
O agravamento da situação atmosférica intensificou-se particularmente a partir da quinta-feira anterior ao registro crítico, com a região sul da cidade apresentando os maiores níveis de concentração poluente. Bairros como Morro da Liberdade, Educandos e Cachoeirinha enfrentaram índices de até 224,4 microgramas por metro cúbico, evidenciando uma distribuição desigual da fumaça conforme a proximidade dos pontos de origem do fogo.
O cenário atual está inserido num contexto mais amplo de aumento significativo dos eventos de queimada na região amazônica. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, entre o primeiro dia de janeiro e o oitavo dia de outubro foi registrado um total de 7.039 focos de queimada, representando elevação de 55 por cento em comparação ao período equivalente do ano anterior.
O mês de setembro em particular destacou-se pela intensidade. Durante aquele mês, foram contabilizados 3.726 focos de queimada, cifra que supera em 295,5 por cento o número de eventos registrados no mesmo mês de 2025, que foi de 942 focos. Este dado ilustra o comportamento sazonal do fenômeno, com setembro tradicionalmente representando o período de maior concentração de queimadas na região.
Quando se analisa especificamente o período de 1º a 8 de outubro, contudo, observa-se uma ligeira redução. Os 782 focos registrados neste intervalo representam queda de 12 por cento em relação aos 874 registrados no mesmo período de 2025. Ainda assim, a persistência de atividade incendiária aliada às condições climáticas desfavoráveis continua gerando impactos significativos sobre a qualidade atmosférica.
O contexto de estiagem e as medidas governamentais
A combinação entre aumento de focos de queimada e condições climáticas adversas estabelece o pano de fundo para os episódios de qualidade do ar crítica. O estado do Amazonas enfrenta processo de estiagem severa, agravado por previsões de precipitação abaixo dos patamares históricos esperados para o período.
Diante deste cenário, o governo estadual adotou medidas formais para reconhecer a situação de risco. Em 21 de setembro, foi decretada situação de emergência em todos os 62 municípios da unidade federativa. Anteriormente, em junho, já havia sido estabelecido decreto de estado de emergência climática e ambiental, ação fundamentada nas projeções relacionadas ao fenômeno El Niño, processo que historicamente está associado a períodos de redução de precipitações na região amazônica e intensificação de ondas de calor.
Apesar do reconhecimento formal das condições de emergência, documento relativo a plano de adaptação climática que pudesse orientar ações preventivas e mitigadoras não foi elaborado conforme seria esperado ante a gravidade da situação declarada.
Os impactos na saúde e rotina dos moradores
A deterioração da qualidade atmosférica não permanece como mero dado estatístico. Para os residentes da capital amazonense, a fumaça representa obstáculo direto às atividades cotidianas e impacto mensurável sobre o estado de saúde.
Uma professora residente no centro de Manaus relatou à agência de notícias que começou a perceber piora gradual na qualidade do ar já desde o início de setembro. No decorrer das duas últimas semanas anteriores ao relato, entretanto, o impacto da fumaça na saúde intensificou-se de forma considerável, ultrapassando o incômodo e interferindo de maneira substancial nas atividades laborais e nas deslocações fora da residência.
Os sintomas por ela experimentados incluem dor de cabeça persistente, tosse, inflamação na garganta, ardência nos olhos, tontura e, em algumas ocasiões, episódios de vômito. Tal relato ilustra o espectro de manifestações que a exposição a elevadas concentrações de material particulado pode desencadear no organismo humano.
As condições climáticas concomitantes acentuam ainda mais o desconforto. No dia em questão, Manaus registrou temperatura máxima de 38 graus Celsius, com sensação térmica alcançando 41 graus Celsius durante as horas mais quentes da jornada, conforme informações do Instituto Nacional de Meteorologia.
Contexto geral: Amazonas, queimadas e variabilidade climática
A situação atual de Manaus insere-se numa dinâmica mais ampla de pressão ambiental sobre a região amazônica. As queimadas representam fenômeno complexo, resultante tanto de atividades humanas deliberadas quanto de consequências indiretas de mudanças climáticas globais. O El Niño, fenômeno oceânico-atmosférico de escala planetária, altera padrões de circulação atmosférica e precipitação, afetando particularmente regiões tropicais úmidas como a Amazônia.
A vulnerabilidade crescente da região a episódios de seca prolongada e calor intenso cria ambiente propício para propagação de incêndios, tanto aqueles iniciados intencionalmente para fins de desflorestamento quanto aqueles que se espalham de forma acidental. A combinação entre pressão antrópica e variabilidade climática estabelece ciclo reforçador de degradação ambiental.
O Material particulado fino, categoria de poluente presente nos registros de Manaus, representa partículas com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, dimensões que permitem penetração profunda no sistema respiratório humano até os alvéolos pulmonares. Deste modo, sua presença em altas concentrações constitui risco significativo para a saúde cardiovascular e respiratória de toda população exposta.
O que acompanhar
A evolução da situação exige monitoramento de diversos desdobramentos possíveis. Em primeiro lugar, importa acompanhar se os padrões de precipitação previstos efetivamente se materializarão conforme as projeções, ou se a estiagem persistirá além dos horizontes temporais antecipados. Precipitação adequada representaria fator determinante para redução dos focos de queimada e melhoria da qualidade do ar.
Outro ponto relevante diz respeito à implementação do plano de adaptação climática mencionado anteriormente. O anúncio de medidas concretas de prevenção, controle de incêndios e proteção de áreas sensíveis poderia indicar mudança na postura governamental frente à emergência declarada.
Além disso, convém monitorar os registros contínuos de qualidade do ar e as concentrações de material particulado. Possível redução destes indicadores sinalizaria melhoria das condições atmosféricas, enquanto persistência em patamares críticos revelaria a continuidade do problema.
Por fim, a resposta do setor de saúde pública quanto ao aumento de demandas relacionadas a problemas respiratórios e cardiovasculares durante períodos de pior qualidade do ar constitui indicador importante dos reais impactos sanitários que a população enfrenta.
Principais pontos:
• Manaus registrou péssima qualidade do ar em 9 de outubro com concentração de PM2,5 de 350,9 µg/m³, mais de 23 vezes o limite da OMS, repetindo episódio similar ocorrido em 23 de setembro
• Queimadas aumentaram 55 por cento no acumulado do ano e 295,5 por cento em setembro especificamente, gerando fumaça densa que afeta especialmente a região sul da cidade
• Governo declarou situação de emergência nos 62 municípios e decretou emergência climática ambiental, mas não elaborou plano de adaptação climática previsto
• Moradores enfrentam sintomas como dor de cabeça, tosse, garganta inflamada e olhos ardendo, com impactos significativos nas atividades cotidianas e na saúde
Matéria produzida pela Redação 5News com apoio de inteligência artificial a partir da apuração de Amazônia Real — os fatos do episódio vêm da matéria original; o contexto usa informação pública consolidada. Veja nossa política editorial. A matéria completa, com todo o contexto, está em amazoniareal.com.br — o conteúdo pertence a Amazônia Real.